TDAH e saúde da mulher · 26 de agosto de 2026

TDAH na gestação: diagnósticos e uso de estimulantes estão aumentando. O que um novo estudo realmente nos diz?

Mais mulheres chegam à gestação com diagnóstico de TDAH e em tratamento farmacológico. Os dados mostram uma transformação da prática clínica, mas não autorizam respostas simplistas sobre segurança.

Por Dr. Rodrigo Nogueira BorghiLeitura estimada: 12 minutosInstituto Borghi

Durante muito tempo, TDAH e gestação quase não apareciam na mesma conversa médica.

Isso não aconteceu porque mulheres com TDAH não engravidassem. A explicação é mais complexa: durante décadas, o TDAH foi reconhecido principalmente a partir de um modelo predominantemente masculino, infantil e marcado por hiperatividade evidente. Meninas e mulheres com apresentações menos externalizantes, maior desatenção, desorganização, sobrecarga emocional e estratégias de compensação frequentemente chegavam ao diagnóstico tarde, quando chegavam.

Esse cenário mudou.

E um estudo publicado em agosto de 2026 no Journal of Clinical Psychiatry mostra a dimensão dessa transformação.

Os pesquisadores analisaram 2.327.110 gestações em Ontario, no Canadá, entre 2002 e 2023. O objetivo era observar duas coisas: como mudou ao longo do tempo a frequência de mulheres com diagnóstico prévio de TDAH chegando à gestação e como mudou o uso de medicamentos estimulantes nessa população.

Os números são impressionantes.

A proporção de gestações em mulheres com registro de TDAH nos dez anos anteriores à concepção passou de aproximadamente 0,5% em 2002 para 2,5% em 2023.

Em outras palavras, no final do período estudado, aproximadamente uma em cada 40 gestações ocorria em uma mulher com esse histórico diagnóstico.

Quando os pesquisadores utilizaram uma definição mais restrita, considerando diagnóstico registrado nos três anos anteriores à concepção, a frequência passou de 0,1% para 1,3%. Portanto, os números absolutos mudam conforme a definição adotada, mas a direção do fenômeno é a mesma: há muito mais mulheres com TDAH chegando à idade reprodutiva já reconhecidas pelo sistema de saúde.

O dado mais importante talvez não seja apenas o aumento do diagnóstico

O estudo também encontrou uma mudança expressiva no tratamento.

Entre 2014 e 2023, considerando as mulheres com TDAH, a proporção que havia recebido um estimulante no ano anterior à gravidez passou de 21,8% para 39,8%.

Durante a própria gestação, o uso passou de 10,1% para 20,9%.

Ou seja: em menos de dez anos, praticamente dobrou a proporção de mulheres com TDAH expostas a estimulantes durante a gestação.

Mas há outro detalhe especialmente interessante.

No início do período analisado, o metilfenidato predominava. A maior parte do crescimento posterior, entretanto, foi impulsionada pela lisdexanfetamina.

Entre 2014 e 2023, o uso de lisdexanfetamina no ano anterior à gravidez aumentou de 5,7% para 19,9%. Durante a gestação, passou de 2,6% para 10%.

Ao final do período, ela havia se tornado o estimulante mais frequentemente utilizado durante a gestação naquela população.

Esse é um dado particularmente relevante porque existe uma assimetria entre prática clínica e produção de evidência: a utilização da lisdexanfetamina aumentou rapidamente, enquanto a quantidade de dados específicos sobre sua segurança gestacional permanece muito menor do que a disponível para medicamentos como o metilfenidato.

Mas as mulheres estão simplesmente mantendo os estimulantes durante toda a gravidez?

Não.

Na verdade, talvez o dado mais revelador do estudo seja exatamente o contrário.

Entre as mulheres que utilizavam estimulantes antes da concepção, aproximadamente três quartos interromperam o medicamento antes da gravidez ou durante o primeiro trimestre.

Em 2023, entre aquelas que utilizavam estimulantes no período pré-concepcional:

Por outro lado, 15,9% permaneceram em tratamento durante toda a gestação, enquanto 5,5% chegaram a reiniciar o medicamento mais tarde.

Portanto, não existe um comportamento único.

Existe um enorme conjunto de decisões clínicas individuais acontecendo exatamente no período da concepção e do início da gestação.

E isso nos leva à pergunta realmente importante.

Afinal, estimulantes são seguros durante a gestação?

Este estudo não responde a essa pergunta.

E essa talvez seja a parte mais importante para compreender corretamente seus resultados.

Os pesquisadores analisaram tendências de diagnóstico e utilização de medicamentos. Eles não compararam diretamente desfechos obstétricos ou fetais entre mulheres que continuaram ou interromperam o tratamento.

Portanto, usar esse estudo para afirmar que estimulantes são seguros ou perigosos na gravidez seria extrapolar aquilo que os dados permitem concluir.

Para responder à questão da segurança, precisamos olhar outros estudos.

E aqui a história ficou consideravelmente mais interessante nos últimos anos.

O que sabemos hoje sobre malformações e aborto?

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no JAMA Network Open em 2024 avaliou dez estudos envolvendo mais de 16 milhões de gestações.

Os autores não encontraram aumento estatisticamente significativo de malformações congênitas ou abortamento associado à exposição a metilfenidato ou atomoxetina quando compararam essas gestações tanto com mulheres com TDAH não medicadas quanto com a população geral.

Isso não transforma esses medicamentos em substâncias “comprovadamente seguras”. Estudos observacionais nunca eliminam completamente confundimento e não existe risco zero em medicina.

Mas os dados são bastante diferentes daquela ideia simplista de que qualquer exposição farmacológica durante a gravidez deve necessariamente produzir grande aumento de risco fetal.

E o neurodesenvolvimento da criança?

Essa também é uma preocupação frequente.

Um grande estudo publicado no JAMA Psychiatry em 2024 avaliou exposição intrauterina a anfetamina/dextroanfetamina e metilfenidato e acompanhou o desenvolvimento das crianças.

Depois de ajustes importantes para confundidores, os autores concluíram que essas exposições não pareciam aumentar de maneira clinicamente significativa o risco de transtornos do neurodesenvolvimento na infância.

Em 2025, outro estudo populacional, publicado na Molecular Psychiatry, avaliou 861.650 crianças em registros suecos.

Os pesquisadores também não encontraram aumento de risco para transtornos do neurodesenvolvimento, TDAH ou autismo entre crianças expostas intraútero a medicamentos para TDAH após os ajustes estatísticos. Uma meta-análise realizada pelos mesmos autores chegou a resultado semelhante.

Mais uma vez, isso não significa “risco zero”.

Significa algo muito mais útil: até o momento, os grandes estudos disponíveis não demonstram um grande sinal de risco neurodesenvolvimental decorrente dessa exposição.

Isso significa que não existem riscos obstétricos?

Também não.

Um estudo envolvendo mais de 11 mil gestações na Noruega e na Suécia encontrou um possível aumento modesto do risco de parto prematuro associado a maior exposição cumulativa a medicamentos para TDAH, particularmente em fases mais tardias da gestação.

O tamanho do sinal foi pequeno e alguns resultados isolados não atingiram significância estatística, mas existe evidência suficiente para lembrar que “dados globalmente tranquilizadores” não significa “ausência de qualquer risco possível”.

Essa é justamente a dificuldade da medicina perinatal.

A pergunta raramente é:

“Este medicamento tem risco ou não?”

A pergunta correta costuma ser:

“Qual é o balanço entre os riscos de tratar e os riscos de não tratar esta paciente específica?”

Gravidez não transforma TDAH em uma condição sem importância

Esse ponto merece atenção.

Uma revisão clínica publicada no American Journal of Obstetrics & Gynecology em 2024 recomenda que o manejo do TDAH durante o período perinatal seja individualizado.

Para quadros leves ou moderados, intervenções não farmacológicas como psicoeducação, estratégias de organização, coaching e psicoterapia podem assumir papel ainda maior.

Nos casos moderados ou graves, porém, a farmacoterapia pode continuar fazendo parte do tratamento.

A recomendação não é “medicar todas”.

Tampouco é “suspender todas”.

É avaliar a gravidade do TDAH, o comprometimento funcional, as comorbidades psiquiátricas, a capacidade de organização, os riscos ocupacionais, a direção de veículos, a adesão aos cuidados pré-natais, o suporte familiar e a resposta prévia às alternativas terapêuticas.

Mais diagnósticos significam que estamos diagnosticando demais?

Não necessariamente.

Esse é outro erro de interpretação que precisa ser evitado.

O estudo canadense mostra aumento de diagnósticos registrados. Ele não foi desenhado para determinar quanto desse crescimento corresponde a correção de subdiagnóstico, maior procura por tratamento, maior reconhecimento clínico, mudanças culturais, maior disponibilidade de serviços ou eventual excesso diagnóstico.

Provavelmente existem vários fenômenos acontecendo simultaneamente.

Há sólida literatura mostrando que meninas e mulheres historicamente enfrentam maior risco de não reconhecimento do TDAH, especialmente quando predominam sintomas menos externalizantes ou quando ansiedade, depressão e estratégias compensatórias mascaram a condição.

Também existem sinais de que a aceleração recente foi particularmente intensa entre mulheres jovens.

Na Finlândia, por exemplo, um estudo populacional com mais de 5,5 milhões de pessoas encontrou forte aumento de novos diagnósticos durante a pandemia, com crescimento especialmente pronunciado entre adolescentes e mulheres jovens.

Portanto, crescimento diagnóstico não deve ser automaticamente interpretado nem como prova de uma “epidemia de TDAH”, nem como evidência de que todos esses novos diagnósticos necessariamente representam correção de subdiagnóstico.

A ciência precisa suportar alguma ambiguidade.

Há ainda um dado clínico que chama atenção

As mulheres com TDAH daquele estudo canadense apresentavam uma carga psiquiátrica significativamente maior do que aquelas sem TDAH.

Histórico de outros transtornos psiquiátricos estava presente em 86,8% das mulheres com TDAH, contra 42,9% entre aquelas sem o diagnóstico.

Elas também eram, em média, mais jovens, mais frequentemente primíparas e mais representadas nos estratos socioeconômicos inferiores.

Isso importa porque a decisão sobre tratamento durante a gravidez raramente envolve apenas uma molécula.

Envolve a pessoa inteira.

Depressão, ansiedade, transtornos do sono, uso de substâncias, funcionamento executivo, apoio familiar e vulnerabilidade social podem modificar completamente o balanço de riscos.

O melhor momento para discutir TDAH e gravidez talvez seja antes da gravidez

Um dos achados mais claros do estudo é que grande parte das mudanças medicamentosas acontece próximo à concepção.

Por isso, sempre que possível, a conversa deveria começar no planejamento reprodutivo.

Qual é a gravidade do TDAH?

Qual foi a resposta ao tratamento?

Quais sintomas realmente produzem prejuízo?

É possível reduzir dose?

Existem estratégias não farmacológicas suficientes?

Há comorbidades que também precisam ser tratadas?

O que acontecerá se o medicamento for retirado?

Qual o plano para o pós-parto, período em que privação de sono, aumento das demandas executivas e reorganização da rotina podem novamente modificar significativamente o funcionamento?

Essas perguntas são muito mais úteis do que simplesmente classificar um medicamento como “permitido” ou “proibido”.

A principal mensagem

Talvez este novo estudo não seja importante por responder se mulheres grávidas devem ou não utilizar estimulantes.

Ele não responde isso.

Seu verdadeiro valor é mostrar que essa pergunta está se tornando cada vez mais frequente.

Em 2002, mulheres com diagnóstico registrado de TDAH representavam uma pequena parcela das gestações naquela população.

Duas décadas depois, representam aproximadamente uma em cada 40.

Ao mesmo tempo, mais mulheres chegam à gestação em tratamento farmacológico, particularmente com lisdexanfetamina.

A prática clínica mudou mais rapidamente do que nossa base de evidências.

E agora precisamos correr atrás.

O futuro do tratamento do TDAH na saúde da mulher provavelmente será menos baseado em regras universais e mais baseado em medicina personalizada: diagnóstico cuidadoso, avaliação funcional, planejamento reprodutivo, análise individual de risco e decisão compartilhada.

Não se trata de banalizar medicamentos durante a gestação.

Mas também não podemos voltar à lógica antiga de que proteger uma gravidez significa necessariamente deixar de tratar a mulher que está grávida.

Em medicina, às vezes o verdadeiro risco está justamente em fingir que apenas um dos lados da equação possui risco.

Referências principais

Egsgaard S, Brown HK, Zipursky J, et al. Time Trends in Maternal Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and Medication Use in Pregnancy. J Clin Psychiatry. 2026;87(3):26m16321.

Scoten O, Tabi K, Paquette V, et al. Attention-deficit/hyperactivity disorder in pregnancy and the postpartum period. Am J Obstet Gynecol. 2024;231(1):19-35.

di Giacomo E, Confalonieri V, Tofani F, Clerici M. Methylphenidate and Atomoxetine in Pregnancy and Possible Adverse Fetal Outcomes: A Systematic Review and Meta-Analysis. JAMA Netw Open. 2024;7(11):e2443648.

Suarez EA, Bateman BT, Hernandez-Diaz S, et al. Prescription Stimulant Use During Pregnancy and Risk of Neurodevelopmental Disorders in Children. JAMA Psychiatry. 2024;81(5):477-488.

Bang Madsen K, Larsson H, Skoglund C, et al. In utero exposure to methylphenidate, amphetamines and atomoxetine and offspring neurodevelopmental disorders. Mol Psychiatry. 2025;30:3885-3894.

Srinivas C, Karlstad Ø, Stigum H, et al. Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder Medication Use in Pregnancy and Risk of Preterm Birth. Paediatr Perinat Epidemiol. 2026;40(2):281-290.

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui avaliação médica individualizada.

Compartilhar no WhatsApp ↗