Nos últimos anos, o TDAH parece ter se tornado onipresente. Há mais pessoas falando sobre o transtorno, mais adultos procurando avaliação, mais mulheres recebendo diagnóstico e, inevitavelmente, mais prescrições de medicamentos. A impressão intuitiva é quase inevitável: estamos vivendo uma epidemia de TDAH.
Só que há um problema nessa conclusão.
Diagnóstico, incidência registrada, prevalência epidemiológica e uso de medicamentos são coisas diferentes.
Misturá-las produz manchetes excelentes. Produz ciência ruim.
Uma revisão recente de Sahakian e Langley, publicada no Journal of Psychopharmacology, voltou a colocar o tema em evidência ao discutir o crescimento dos diagnósticos de TDAH, o aumento do uso de medicamentos e, em paralelo, a utilização de fármacos para aprimoramento cognitivo por indivíduos sem TDAH.
A pergunta que fica é muito maior do que parece: existem realmente mais pessoas com TDAH ou existem mais pessoas com TDAH sendo reconhecidas?
A primeira pista: os diagnósticos realmente estão aumentando
Nesse ponto, há pouca controvérsia.
Dados administrativos mostram crescimento expressivo do número de diagnósticos registrados nas últimas décadas.
Um exemplo particularmente interessante foi discutido recentemente por Samuele Cortese. O estudo de Cui e colaboradores analisou dados administrativos de mais de 2,7 milhões de crianças, adolescentes e adultos jovens, entre 3 e 29 anos, na Colúmbia Britânica, acompanhando as tendências entre 2003 e 2023.
A incidência de diagnósticos aumentou ao longo do período e essa aceleração tornou-se particularmente evidente depois da introdução do DSM-5 e após a pandemia. O crescimento pós-pandemia foi especialmente pronunciado entre adolescentes e mulheres adultas jovens.
Isso é importante.
Mas ainda não responde à pergunta principal.
Porque esses dados mostram quantas pessoas passaram a receber um diagnóstico no sistema de saúde, e não necessariamente quantas pessoas na população possuem biologicamente ou epidemiologicamente o transtorno.
Cortese chama atenção justamente para essa distinção: prevalência administrativa e prevalência epidemiológica não são sinônimos. Dados administrativos dependem de alguém reconhecer os sintomas, procurar atendimento, ter acesso ao sistema, ser adequadamente avaliado e finalmente receber o diagnóstico.
Em outras palavras, um transtorno pode permanecer epidemiologicamente relativamente estável enquanto sua visibilidade clínica aumenta dramaticamente.
E quando procuramos a “epidemia” diretamente?
Aqui a história fica mais interessante.
Martin e colaboradores realizaram uma revisão sistemática justamente para investigar se a prevalência do TDAH estaria realmente aumentando depois de 2020.
Foram identificados 40 estudos em 17 países, além de um estudo envolvendo 42 países. E o resultado não foi a explosão epidemiológica que poderíamos esperar pelas manchetes: não foi demonstrado aumento significativo da prevalência do TDAH.
Mais importante ainda, apenas quatro estudos foram classificados como de baixo risco de viés, e justamente os estudos de melhor qualidade não indicaram aumento da prevalência desde 2020.
Portanto, temos um aparente paradoxo.
Os diagnósticos aumentam. A procura aumenta. As prescrições aumentam. Mas a melhor evidência disponível não demonstra, até o momento, que a prevalência populacional do transtorno esteja aumentando na mesma direção.
Isso não é uma contradição. É justamente o ponto.
Talvez não estejamos produzindo TDAH. Talvez estejamos encontrando TDAH.
Durante décadas, nossa representação prototípica do transtorno foi enviesada.
O TDAH era o menino hiperativo, inquieto, disruptivo, com dificuldade escolar. Essa representação ajudava a encontrar alguns pacientes e a deixar muitos outros invisíveis.
Adultos, indivíduos predominantemente desatentos e especialmente mulheres poderiam passar anos fora do radar diagnóstico.
O aumento recente entre mulheres adolescentes e adultas jovens é particularmente interessante por isso. Cortese lembra que mulheres e meninas foram historicamente sub-reconhecidas, de modo que parte do crescimento atual pode representar correção de um déficit diagnóstico histórico, e não criação de uma nova doença.
Os próprios critérios diagnósticos também mudaram.
Com o DSM-5, por exemplo, o limiar para adultos passou de seis para cinco sintomas e a idade máxima considerada para presença de sintomas na infância foi ampliada.
Em um estudo citado por Cortese, a mudança do critério de idade de início esteve associada a uma elevação da prevalência estimada de 7,38% para 10,84%. Curiosamente, os jovens incorporados pelo critério mais amplo não apresentavam menor gravidade sintomática ou padrões diferentes de comorbidade psiquiátrica.
Ou seja, ampliar o diagnóstico não significa necessariamente diluir o diagnóstico.
Pode significar corrigir uma fronteira que antes deixava pessoas clinicamente relevantes do lado de fora.
Mas existe o movimento contrário também
Seria igualmente simplista concluir que todo aumento representa apenas correção do subdiagnóstico.
O TDAH continua sendo um diagnóstico clínico. Não existe atualmente um biomarcador capaz de confirmar ou excluir individualmente o transtorno com sensibilidade e especificidade suficientes para uso diagnóstico.
Além disso, desatenção, procrastinação, inquietação, impulsividade e dificuldade executiva não são fenômenos exclusivos do TDAH.
Privação de sono pode produzir desatenção.
Depressão pode produzir dificuldade executiva.
Ansiedade pode prejudicar concentração.
Uso de substâncias, transtornos do humor, trauma, estresse crônico e uma série de outras condições podem produzir fenótipos parcialmente semelhantes.
Como destaca Cortese, os sintomas do TDAH são inespecíficos, e isso torna diagnóstico diferencial e treinamento clínico fundamentais.
É justamente aqui que mora um dos maiores riscos da popularização contemporânea do TDAH.
Reconhecimento é diferente de identificação. E identificação é diferente de diagnóstico.
As redes sociais podem ajudar alguém a perceber que talvez exista uma explicação para dificuldades que carregou durante décadas. Isso é potencialmente positivo.
O problema começa quando a familiaridade com um sintoma passa a funcionar como prova de um transtorno.
E os medicamentos?
Também aqui precisamos perguntar qual é o denominador.
Popit e colaboradores publicaram em 2026 uma revisão sistemática e meta-análise sobre a proporção de pessoas com TDAH clinicamente diagnosticado que recebiam tratamento farmacológico.
Foram incluídos 13 estudos, 12 na meta-análise. A estimativa combinada foi de 73,4%, mas com heterogeneidade extraordinariamente elevada, I² de 100%, e intervalo de predição entre 29,6% e 94,5%. Os próprios autores alertam que o número agregado não deve ser transformado diretamente em inferência clínica.
Nas análises por idade, a proporção estimada chegou a 82,6% entre adultos diagnosticados, mas novamente com heterogeneidade extrema, razão pela qual os autores consideram esse resultado exploratório.
E aqui existe outra armadilha estatística.
Esse estudo não diz que 73% da população usa medicamento para TDAH.
Ele pergunta qual proporção dos indivíduos já diagnosticados recebe farmacoterapia.
Mais ainda: aumento no número de prescrições não significa automaticamente aumento da proporção de pessoas com TDAH adequadamente tratadas. Mudanças no reconhecimento diagnóstico, acesso ao sistema e tamanho da população diagnosticada modificam o denominador. Os próprios autores fazem essa ressalva explicitamente.
Então estamos diagnosticando demais ou de menos?
Provavelmente estamos fazendo as duas coisas, em lugares diferentes e com pessoas diferentes.
Essa talvez seja a resposta menos confortável e mais próxima da realidade.
Pode existir sobrediagnóstico individual ao mesmo tempo em que existe subdiagnóstico populacional.
Uma pessoa sem TDAH pode receber um diagnóstico inadequado enquanto, na sala ao lado, outra pessoa com TDAH verdadeiro permanece sem diagnóstico.
Esses fenômenos não se anulam.
Cortese cita uma meta-análise segundo a qual, mesmo nos Estados Unidos, para cada indivíduo recebendo medicação para TDAH sem diagnóstico formal havia aproximadamente três indivíduos diagnosticados que poderiam se beneficiar de medicamento, mas não o recebiam.
Por isso, transformar o debate em “TDAH virou moda” versus “todo mundo sempre foi subdiagnosticado” empobrece uma questão muito mais sofisticada.
O verdadeiro problema não é quantos diagnósticos fazemos
É quais diagnósticos fazemos.
Se o crescimento atual representa maior reconhecimento de mulheres, adultos e indivíduos anteriormente invisíveis ao sistema, estamos diante de progresso.
Se representa transformação indiscriminada de experiências humanas comuns em psicopatologia, temos um problema.
E provavelmente as duas coisas estão acontecendo simultaneamente.
A revisão de Martin oferece uma espécie de antídoto contra conclusões apressadas: a demanda por avaliação cresceu, mas demanda não equivale a prevalência.
A meta-análise de Popit lembra que prescrição também não equivale a prevalência.
E Cortese talvez formule a pergunta mais importante de todas: em vez de nos fixarmos simplesmente no número de diagnósticos, deveríamos perguntar se as pessoas que realmente possuem TDAH estão sendo corretamente identificadas e adequadamente tratadas.
Essa mudança parece pequena, mas muda completamente a discussão.
Porque o objetivo da psiquiatria nunca deveria ser produzir menos diagnósticos.
Nem produzir mais.
Deveria ser produzir diagnósticos melhores.
E talvez essa seja a melhor maneira de compreender a suposta “epidemia de TDAH”.
Não temos evidência convincente de que o transtorno tenha subitamente se tornado muito mais prevalente.
Temos evidência de que o mundo passou a procurá-lo muito mais.
Agora precisamos garantir que, quando o encontrarmos, seja realmente TDAH.