Psiquiatria baseada em evidências · 30 jul 2026

Quando a linguagem deixa de estigmatizar e começa a esconder o sofrimento no TDAH?

Precisão científica e respeito humano não competem entre si. O problema começa quando a linguagem “mais leve” apaga o prejuízo real e o direito ao cuidado.

Por Dr. Rodrigo Nogueira BorghiLeitura estimada: 11 minutosInstituto Borghi

Existe uma ideia sedutora circulando no debate contemporâneo sobre o TDAH: a de que, mudando as palavras, mudaremos automaticamente a experiência das pessoas.

Em parte, isso é verdade. Palavras podem ferir, estigmatizar, culpabilizar e transformar sintomas em supostos defeitos morais. Durante décadas, pessoas com TDAH foram descritas como preguiçosas, indisciplinadas, irresponsáveis, desinteressadas, imaturas ou incapazes de se esforçar. Essas palavras nunca foram apenas descrições. Foram sentenças.

Mas existe um ponto em que a tentativa de tornar a linguagem mais acolhedora pode ultrapassar a fronteira do respeito e entrar no território da imprecisão. E uma linguagem imprecisa, mesmo quando bem-intencionada, também pode produzir danos.

Esse é o centro do debate entre dois artigos publicados na The Lancet Psychiatry. Em 2025, French e colaboradores publicaram The power of words: respectful language in ADHD research. Em 2026, Stephen Faraone e Michael Miller responderam com Precision language in ADHD research. A discussão é extremamente necessária.

Não existe dignidade em chamar sofrimento de diferença neutra

Eu considero indispensável uma abordagem respeitosa e não estigmatizante do TDAH. Mas respeito não significa fingir que todos os aspectos do transtorno são neutros, vantajosos ou apenas diferentes.

Para algumas pessoas, o TDAH pode coexistir com criatividade, curiosidade, coragem para explorar novas possibilidades, pensamento não convencional e capacidade de envolvimento intenso com assuntos de interesse. Para outras, ou para essas mesmas pessoas em diferentes momentos, o transtorno significa reprovações, demissões, endividamento, acidentes, conflitos conjugais, projetos abandonados, atraso acadêmico, exaustão e a sensação persistente de estar aquém da própria capacidade.

Transformar o TDAH exclusivamente em uma narrativa de potencialidades pode parecer afirmativo, mas acaba impondo outra forma de silenciamento: a pessoa passa a sentir que precisa celebrar aquilo que, naquele momento, está destruindo seu funcionamento.

Não é respeitoso dizer a alguém que seu sofrimento é apenas uma diferença de estilo cognitivo quando essa pessoa não consegue estudar, trabalhar, cuidar da casa, manter compromissos ou organizar minimamente a própria vida.

A diferença entre retirar o julgamento e retirar o prejuízo

Precisamos retirar o julgamento moral do TDAH. Precisamos parar de traduzir dificuldade de iniciação como preguiça, desregulação atencional como falta de interesse, impulsividade como mau-caráter e desorganização como indiferença.

Mas não precisamos retirar o conceito de prejuízo. Essa é uma distinção essencial. Dizer que uma função está comprometida não significa dizer que a pessoa é inferior. Dizer que existe um déficit mensurável não significa declarar que toda a pessoa é deficitária. Dizer que existe um transtorno não significa transformar alguém em seu diagnóstico.

Na medicina, essas palavras possuem significado técnico. Elas ajudam a delimitar quem necessita de intervenção, quais desfechos devem ser estudados e que tipo de suporte deve ser oferecido.

O problema não está necessariamente na palavra “déficit”. O problema começa quando passamos de “há um déficit em determinada função” para “esta é uma pessoa defeituosa”. A primeira frase descreve um achado clínico. A segunda desumaniza.

“Desafio” não é sinônimo de “déficit”

A substituição de termos mais técnicos por palavras aparentemente mais positivas exige cautela. Um “desafio” pode ser qualquer situação que demande esforço. Já um déficit, em linguagem científica, refere-se a uma redução ou insuficiência em determinada capacidade quando comparada a um parâmetro relevante. São conceitos diferentes.

Quando substituímos toda descrição funcional por uma palavra ampla e agradável, perdemos justamente aquilo que permitiria compreender o problema e construir uma intervenção. A ciência não pode escolher seus termos apenas pelo conforto emocional que produzem. Também precisa perguntar: essa palavra descreve corretamente o fenômeno?

O nome do TDAH já é impreciso — mas a solução não é torná-lo mais vago

É evidente que “transtorno do déficit de atenção e hiperatividade” não representa toda a complexidade do quadro. A pessoa com TDAH não apresenta necessariamente falta de atenção em todas as circunstâncias. Ela pode permanecer concentrada por horas em algo interessante e, ao mesmo tempo, não conseguir iniciar uma tarefa simples, repetitiva ou pouco recompensadora.

Isso não é contradição. É parte da desregulação do controle atencional. O problema pode estar menos na quantidade total de atenção e mais na capacidade de mobilizá-la, direcioná-la, sustentá-la e interrompê-la de acordo com os objetivos e as demandas do ambiente.

Precisamos aprimorar nosso vocabulário, mas aprimorar significa aumentar a precisão, não substituir conceitos específicos por expressões tão amplas que passam a significar qualquer coisa.

O paradoxo burocrático da linguagem “leve”

Há ainda um problema bastante concreto. Sistemas de saúde, instituições educacionais, universidades, empregadores, seguradoras e órgãos públicos não concedem suporte simplesmente porque alguém possui uma “forma diferente de funcionar”. Em geral, é necessário demonstrar prejuízo, limitação ou necessidade clínica.

Termos como transtorno, comprometimento e incapacidade funcional têm implicações administrativas, jurídicas e assistenciais. Faraone e Miller chamam atenção para o risco de que a neutralização excessiva da linguagem produza consequências involuntárias: ao tornar o quadro aparentemente menos incapacitante, podemos oferecer às instituições um argumento para negar tratamento, adaptações ou proteção.

É o tipo de ironia burocrática que parece roteiro de comédia ruim: tentando proteger a pessoa de uma palavra, acabamos retirando dela o direito ao cuidado.

A neurodiversidade amplia o olhar, mas não substitui a clínica

O paradigma da neurodiversidade trouxe contribuições importantes. Ele ajudou a questionar modelos que enxergavam qualquer diferença neurocognitiva apenas como defeito e fortaleceu a participação de pessoas com experiência vivida nas discussões científicas.

Também nos obriga a considerar o ambiente. Uma característica pode ser altamente incapacitante em determinado contexto e menos problemática em outro. Mas reconhecer a influência do ambiente não significa concluir que o ambiente explica tudo. Um ambiente adequado pode reduzir o prejuízo, mas muitas pessoas continuarão necessitando de estratégias terapêuticas, adaptações, psicoterapia, intervenções educacionais e, quando indicado, tratamento medicamentoso.

O modelo social e o modelo médico não precisam disputar a posse do TDAH. Eles descrevem dimensões diferentes de uma realidade complexa.

Nem toda pessoa com TDAH prefere a mesma linguagem

Outro problema é presumir que existe uma única maneira respeitosa de falar sobre o diagnóstico. Algumas pessoas preferem “pessoa com TDAH”; outras preferem “pessoa TDAH”. Algumas consideram “transtorno” uma palavra necessária para que seu sofrimento seja reconhecido; outras se sentem desconfortáveis com ela.

Uma linguagem mais respeitosa precisa incluir pessoas com diferentes níveis de comprometimento, diferentes histórias de vida e diferentes relações com o diagnóstico. A experiência de alguém que identifica sobretudo vantagens em seu padrão cognitivo não pode ser usada para apagar a experiência de quem se encontra gravemente prejudicado. E o inverso também é verdadeiro.

Minha posição

Minha posição é bastante direta: devemos abandonar a linguagem moralizante, mas não a linguagem clínica.

Precisamos parar de chamar sintomas de preguiça, desinteresse, falta de compromisso ou fraqueza. Ao mesmo tempo, não devemos ter medo de falar em transtorno, déficit, disfunção ou prejuízo quando esses termos forem tecnicamente adequados.

A obrigação ética não é tornar toda palavra positiva. É usar a palavra correta, no contexto correto, sem transformar uma descrição clínica em julgamento sobre o valor humano de alguém.

Uma pessoa pode apresentar déficits executivos sem ser uma pessoa deficitária. Pode ter um transtorno sem ter sua identidade inteira definida por ele. Pode precisar de tratamento sem estar quebrada. Pode reconhecer forças associadas ao seu modo de funcionar sem ser obrigada a romantizar aquilo que lhe causa sofrimento.

Conclusão: palavras importam, mas a realidade importa mais

O debate iniciado por French e colaboradores e aprofundado por Faraone e Miller não deveria terminar em uma lista de palavras permitidas e proibidas. Ele deveria nos conduzir a uma comunicação mais madura.

Uma comunicação capaz de escutar as pessoas com TDAH, combater o estigma, reconhecer a diversidade de experiências e, ao mesmo tempo, preservar a precisão científica necessária para diagnosticar, pesquisar e tratar.

As palavras importam porque modificam a forma como enxergamos a realidade. Mas elas não podem ser usadas para maquiar essa realidade. Quando o TDAH produz sofrimento, precisamos ter coragem de chamá-lo de sofrimento. Quando produz prejuízo, precisamos nomear o prejuízo. Quando uma característica se torna uma potência em determinado contexto, também devemos reconhecê-la.

Sem moralização. Sem romantização. Sem reducionismos. Respeito não é falar de maneira mais bonita. É falar de maneira precisa, humana e honesta.

Referências

French B, Dekkers TJ, Barclay I, et al. The power of words: respectful language in ADHD research. Lancet Psychiatry. 2025;12(12):876-879. doi:10.1016/S2215-0366(25)00167-1.

Faraone SV, Miller MJ. Precision language in ADHD research. Lancet Psychiatry. Publicado on-line em 27 de abril de 2026. doi:10.1016/S2215-0366(26)00117-3.

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